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  1. Os Sete Caixões de Dust Creek I — O PRESSÁGIO Dust Creek era uma cidade morta que ainda não sabia disso. Sete caixões estavam alinhados em frente à funerária, madeira crua, tampas fechadas, todos do mesmo tamanho. Sem nomes. Sem datas. O vento soprava a poeira entre eles como se estivesse contando os dias. Cami Quinn chegou ao entardecer. Chapéu baixo. Olhar firme. A estrela de xerife antiga ainda presa ao casaco de couro gasto. Ela desmontou do cavalo e parou diante dos caixões. — Quem morreu? — perguntou. O coveiro saiu da funerária arrastando os pés. Era magro demais, olhos fundos, mãos manchadas de verniz e terra. — Ainda ninguém, — respondeu. — Mas vão morrer. Cami encarou o homem. — Sete? Ele assentiu, com um sorriso torto. — Sempre sete. II — A PROFECIA A cidade inteira conhecia o ritual. Quando um caixão surgia, alguém morria antes do próximo pôr do sol. Sem exceções. Sem falhas. Alguns diziam que o coveiro tinha visões. Outros juravam que ele falava com os mortos. Cami passou a noite observando. No primeiro pôr do sol, um bêbado caiu morto no beco atrás do bar. Um tiro limpo. Ninguém viu o atirador. O coveiro abriu o primeiro caixão com calma. — Um, — murmurou. No segundo dia, uma mulher foi encontrada na igreja, garganta cortada diante do altar. O sino tocou sozinho. — Dois. Cami começou a notar algo errado. Os mortos não eram aleatórios. Eram todos ligados a um massacre antigo — mineiros, famílias queimadas, um crime enterrado sob Dust Creek. E alguém estava garantindo que cada caixão fosse preenchido. III — A VERDADE Na quarta noite, Cami seguiu o coveiro. Debaixo da funerária havia um porão. Armas guardadas. Mapas da cidade. Nomes riscados. Não era profecia. Era execução. O coveiro não trabalhava sozinho. Três homens surgiram das sombras — ex-pistoleiros, agora justiceiros tortos. Eles acreditavam estar “equilibrando a balança”. — Eles mataram nossos irmãos, — disse um deles. — E agora vão pagar. Cami puxou os revólveres. — Vocês não são justiça, — disse fria. — São só assassinos com desculpa. O tiroteio foi rápido. Brutal. Sem heroísmo. Quando a fumaça baixou, só Cami estava de pé. Ela arrastou os corpos para fora. IV — OS CAIXÕES CERTOS Ao amanhecer, a cidade se reuniu. Sete caixões ainda estavam ali. Cami abriu um por um. Os corpos dos verdadeiros culpados estavam dentro. O coveiro tremia. — O destino precisava ser cumprido… Cami apontou o revólver. — Foi. Um tiro seco. O último caixão fechou sozinho, empurrado pelo vento. Cami montou no cavalo. Antes de partir, falou sem olhar para trás: — Alguns destinos não se preveem. — Se impõem. Dust Creek nunca mais recebeu outro caixão. Mas ninguém esqueceu o som da madeira sendo fechada naquela manhã.
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  2. Rosário de Pólvora O sino da velha igreja de Santa Esperanza tocou sozinho ao entardecer. O som ecoou pelo deserto como um presságio. Cami Quinn chegou logo depois, coberta de poeira e cicatrizes. O cavalo ofegava. Na porta, um homem a esperava — batina gasta, olhar frio, rosário nas mãos. Um padre. Ou algo que já tinha sido um, muito tempo atrás. — Preciso da sua ajuda, xerife... — disse ele, voz rouca. — Eles vêm me buscar esta noite. — “Eles”? — Cami apertou os olhos. — Meus pecados. Dentro da igreja, o altar estava coberto de rifles, balas e cruzes quebradas. Cami percebeu que aquele não era um padre qualquer — era um matador vestido de fé. — Você construiu um santuário ou uma armadilha? — Os dois. — Ele acendeu uma vela. — Cada homem tem o seu modo de rezar. O cerco Quando o sol mergulhou no horizonte, o inferno veio a cavalo. Dezenas de homens cercaram a igreja — rostos cobertos, dentes amarelados pela raiva. Um deles gritou: — Saia daí, padre! O demônio não confessa dois pecadores no mesmo dia! Cami girou o tambor do revólver. — Eles não sabem que hoje o demônio atende em dupla. O primeiro disparo quebrou o vitral da Virgem. O segundo apagou uma das velas. E o terceiro... marcou o início da missa. Balas atravessaram os bancos, imagens de santos explodiram em estilhaços. Cami recarregava enquanto o padre atirava ajoelhado, o rosário pendendo entre os dedos. Cada tiro parecia uma oração invertida. — “Pai nosso...” — murmurou ele, antes de derrubar outro homem. — “...que estais no inferno.” — completou Cami, com um meio sorriso. A confissão Quando o tiroteio cessou, restava o cheiro de sangue e incenso queimado. O padre cambaleava, ferido. — Você lutou bem — disse Cami. — Não lutei... — ele tossiu sangue. — Só paguei o que devia. Ela o apoiou, ajudando-o a se sentar diante do altar destruído. — Acha que Deus ainda te escuta? — Não, mas talvez escute você. Cami olhou para o rosário em sua mão. As contas eram de chumbo. Balas. Cada uma com nomes gravados — “María, Tomás, Elena...” — São os inocentes? — São os que matei. — ele respondeu, sorrindo fraco. — E um lugar ficou vazio. O seu. Cami ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, ergueu o rosário e o colocou sobre o peito dele. — Então reze por mim quando chegar lá. Um último disparo ecoou. A vela ao lado do altar se apagou. O amanhecer Quando o sol nasceu sobre Santa Esperanza, a igreja era apenas fumaça e cinzas. Cami saiu montada, o chapéu baixo, o vento levando o som distante do sino rachado. No chão, entre escombros e sangue, o rosário de balas brilhava sob a luz da manhã. Faltava uma conta. Talvez reservada para mais um nome. Talvez para o dela.
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