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Rosário de Pólvora

O sino da velha igreja de Santa Esperanza tocou sozinho ao entardecer.
O som ecoou pelo deserto como um presságio.

Cami Quinn chegou logo depois, coberta de poeira e cicatrizes. O cavalo ofegava.
Na porta, um homem a esperava — batina gasta, olhar frio, rosário nas mãos.
Um padre. Ou algo que já tinha sido um, muito tempo atrás.

— Preciso da sua ajuda, xerife... — disse ele, voz rouca. — Eles vêm me buscar esta noite.
— “Eles”? — Cami apertou os olhos.
— Meus pecados.

Dentro da igreja, o altar estava coberto de rifles, balas e cruzes quebradas.
Cami percebeu que aquele não era um padre qualquer — era um matador vestido de fé.

— Você construiu um santuário ou uma armadilha?
— Os dois. — Ele acendeu uma vela. — Cada homem tem o seu modo de rezar.

 

O cerco

Quando o sol mergulhou no horizonte, o inferno veio a cavalo.
Dezenas de homens cercaram a igreja — rostos cobertos, dentes amarelados pela raiva.
Um deles gritou:
— Saia daí, padre! O demônio não confessa dois pecadores no mesmo dia!

Cami girou o tambor do revólver.
— Eles não sabem que hoje o demônio atende em dupla.

O primeiro disparo quebrou o vitral da Virgem.
O segundo apagou uma das velas.
E o terceiro... marcou o início da missa.

Balas atravessaram os bancos, imagens de santos explodiram em estilhaços.
Cami recarregava enquanto o padre atirava ajoelhado, o rosário pendendo entre os dedos.
Cada tiro parecia uma oração invertida.
— “Pai nosso...” — murmurou ele, antes de derrubar outro homem.
— “...que estais no inferno.” — completou Cami, com um meio sorriso.

 

A confissão

Quando o tiroteio cessou, restava o cheiro de sangue e incenso queimado.
O padre cambaleava, ferido.
— Você lutou bem — disse Cami.
— Não lutei... — ele tossiu sangue. — Só paguei o que devia.

Ela o apoiou, ajudando-o a se sentar diante do altar destruído.
— Acha que Deus ainda te escuta?
— Não, mas talvez escute você.

Cami olhou para o rosário em sua mão. As contas eram de chumbo.
Balas.
Cada uma com nomes gravados — “María, Tomás, Elena...”

— São os inocentes?
— São os que matei. — ele respondeu, sorrindo fraco. — E um lugar ficou vazio. O seu.

Cami ficou em silêncio por um longo tempo.
Depois, ergueu o rosário e o colocou sobre o peito dele.
— Então reze por mim quando chegar lá.

Um último disparo ecoou.
A vela ao lado do altar se apagou.

 

O amanhecer

Quando o sol nasceu sobre Santa Esperanza, a igreja era apenas fumaça e cinzas.
Cami saiu montada, o chapéu baixo, o vento levando o som distante do sino rachado.

No chão, entre escombros e sangue, o rosário de balas brilhava sob a luz da manhã.
Faltava uma conta.
Talvez reservada para mais um nome.
Talvez para o dela.

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